História da migração da família Stawinski

Nossa gente, eu não canso de ler a carta que meu bisavô escreveu, essa carta pode ser encontrada no livro Primódios da Migração Polonesa, escrito pelo frei Alberto Stawinski, tio do meu pai, sabia que algum dia iria ler novamente, já li várias vezes, inclusive em uma festa da família de final do ano fizemos uma homenagem e acabei lendo e falando algumas partes da carta, mas só lendo ela completamente da pra ter a sensação de como foi a migração.

Hoje eu moro na Polônia, fiz o caminho inverso, mas não se compara ao sofrimento passado por minha familia e tantas outras na migração ao Brasil.

 

Narrativa de João (Jan) Stawinski
Depoimento importantissimo para todos que desejam conhecer a história da imigração polonesa no Brasil.

Neste texto narrado pelo próprio imigrante, filho de professor da lingua polonesa, em escola clandestina em Kutno e também funcionário publico do governo Russo.

Nele, podemos encontrar a pobreza das pessoas na região da Polônia que pertencia a russia, o motivo de terem vindo com passaporte russo e mais ainda, descreve a viagem e as amarguras na nova pátria.

Para os que tem antepassados chegando neste periodo, vão poder entender a dificuldade do início da vida destes aqui no Brasil.

Texto do livro Primórdios da Imigração Polonesa no RGS de A. V. Stawinski

UCS/ESST 1976.
” Tinha eu 17 anos, quando emigrei com a família para o Brasil, em 1890. Meu pai André Stawinski, nasceu em 1843, nas proximidades da cidade de Kutno, não longe de Varsóvia. Casou com Verônica Wilicka e foi residir na cidade de Ktuno, onde possuía modesta residência. Teve 5 filhas e 3 filhos, todos nascidos na região polonesa ocupada pela Rússia. As duas filhas mais velhas casaram e foram morar em casa própria.

Papai era homem instruído. Além do idioma polonês dominava, suficientemente o Alemão e o russo. Era funcionário publico e, ao mesmo tempo, dirigia uma escolinha clandestina para crianças polonesas. Naquela época os russos tinham fechado as escolas polonesas de grau primário. Para eu poder freqüentar o curso secundário, meu pai teve que me enviar a Varsóvia. Os poloneses viviam então tempos de duríssima opressão. As igrejas estavam fechadas. Os sacerdotes ou eram encarcerados e deportados, ou eram proibidos de administrar os sacramentos da Igreja. Aos domingos, fazíamos em casa todas as devoções, que costumavam ser feitas nas igrejas, mas sem a presença do padre.

O ordenado do pai era suficiente para sustentar a família. Na zona rural havia muita gente pobre, sem casa e sem meios de vida. Seguidamente, bandos de crianças maltrapilhas e famintas vinham bater a porta de nossa casa, pedindo um pedaço de pão de centeio. A situação ia ficando cada vez mais calamitosa.

Foi, então, que se começou a falar em emigração. De todos os lados vinham chegando ecos de que nas Américas havia terras de sobra e à disposição de quem quisesse emigrar para lá.

Folhetos de propaganda eram espalhados por toda a parte. Vinham, depois, os recrutadores de emigrantes. Ofereciam condições ao alcance de todos. Sabiam explorar a miséria do povo e despertar o entusiasmo pela emigração. Daí em diante, só se falava em ” paraíso terreal” do novo mundo.

Meu pai, a princípio, não quis dar ouvidos àquela propaganda espalhafatosa. Acabou, porém cedendo aos insistentes rogos dos amigos, que se tinham decidido emigrar para o Brasil. Vendeu, então a sua pequena propriedade e aceitou liderar a leva de emigrantes recrutados na região de Ktuno e Mlawa. Toda a nossa mudança coube em 3 bolsas de linhaça e 2 baús.

As autoridades russas não se opuseram a nossa saída. Forneceram-nos, com relativa presteza, passaportes russos. Oficialmente iríamos emigrar não como poloneses, mas como russos. A nossa partida foi aprazada para meados de outubro de 1890. A viagem devia ser empreendida antes da época chuvosa e fria do outono. A despedida dos vizinhos, parentes e amigos foi acompanhada de cenas patéticas.

Misturavam-se lágrimas dos que iam partir com as dos que iam ficar. Não dá para descrever a dor que dilacerava os nossos corações. Como custou a dura separação!”

Viagem Marítima

A nossa sorte estava lançada. A gente sabia o que deixava, não podia, porém adivinhar o que estava reservado para o futuro. Tivemos que partir, ás apalpadelas, em demanda de uma pátria desconhecida.

A primeira etapa da viagem começaria nos vagões de trem. Até a estação férrea mais próxima fomos transportados em carroças. Centenas de emigrantes, chegados ai antes de nós, buscavam, afanosamente, acomodações nos vagões de carga. Reinava confusão babélica. A algazarra era incrível. Cada família procurava um cantinbho9 dentro do vagão, afim de colocar a bagagem e arranjar um assento.

Papai e eu ajeitamos a nossa trouxa junto a porta de entrada. As minhas duas manas casadas, acompanhadas dos respectivos maridos, compareceram á estação para vermos pela última vez. Para sempre ficou gravada na minha mente aquela cena de abraços, beijos e soluços. “Z Bogiem! Niech Bóg was prowadzi”! (Adeus! Que Deus vos acompanhe!).

Soou enfim, a hora de o trem deixar a estação. Apinhado que nem serdinha em lata, partimos em direção à Posnânia. Atravessamos o território prussiano, paramos alguns dias na cidade de Bremen e daí prosseguimos viagem até o porto de Hamburgo. O navio, que nos transportaria para o Brasil, ainda não tinha atracado. Isso obrigou os emigrantes a permanecer, durante vários dias nos

enormes armazéns do cais. Meu pai trazia a lista nominal das famílias que iam embarcar. Servia de interprete junto aos agentes da companhia Marítima. Comprava víveres nos restaurantes próximos do porto. Procurava animar os que tinham se impacientado com a demora da chegada do navio.

Após longos e enjoados dias de espera, começou o nosso embarque. Fomos conduzidos aos porões do navio. Cada família procurou acomodar-se como podia. No navio encontravam-se muitas famílias de emigrantes italianos, que também se destinavam ao Brasil. Eles ocupavam um recanto separado. O aperto era grande.

Não foi nada facil acomodar tantas pessoas num espaço tão pequeno. O que mais angustiava os emigrantes, era a ausência de sacerdote no navio. Apavorava-os o pensamento de que, durante a travessia do mar, poderiam adoecer e morrer sem a assistência do padre católico. Não havia, pois, outro recurso, senão colocarem sob a proteção de da Santíssima Virgem Maria, invocada sob o

título de “Estrela do Mar”. Com caixotes foi improvisado um altar no porão do navio. Diante do quadro de Nossa Senhora de Czenstochowa, colocado nesse tosco altar, os emigrantes faziam as suas preces cotidianas, cantando as loas Godzinki e a antífona ” Pod Twoja obroni uciekamy sie, Swieta Bozarodzicielko” (Á Vossa proteção recorremos, Santa mãe de Deus).

Cada família polonesa trazia consigo objetos de devoção: o ícone de Nossa Senhora de Czenstochowa, o rosário e a vela benta (Gronnica = vela grande de cera virgem).

Os primeiros dias de viagem marítima foram passando sem grandes novidades. O afastando do continente europeu, começos a balouçar á mercê das ondas revoltas do mar. O enjôo generalizou-se a bordo. Crianças e adultos não paravam de marear. O mal-estar aumentou com o calor sufocante á altura da linha equatorial.

O comandante do navio permitiu aos emigrantes subir ao convés para respirar um pouco de ar puro. Registraram-se mortes de algumas crianças. Os cadáveres foram lançados ao mar . A consternação abalou o animo dos passageiros, enchendo-os de pânico.

Após 20 dias de sofrimento e desolação em alto mar , sentimos imenso alívio, ao avistarmos no horizonte a costa brasileira orlada de montanhas. O navio atracou no porto do Rio de Janeiro, donde fomos transportados em lanchões para a Ilha das Flores. Parecia que tivéssemos despertado de um pesadelo. Estranhamos o clima tropical. Nos barracões encontramos alojamento e alimentação abundante.

Antes de nós já tinham chegado muitos outros poloneses que, um dia depois da nossa chegada, seguiram para o Rio Grande do Sul no paquete Rio Pardo. A nossa permanência nos barracões da Ilha das Flores terminou no dia 06 de dezembro, quando embarcamos no paquete Vitória rumo do sul. Chegamos a Porto Alegre a 17 de dezembro. Do cais do Rio Guaiba até os barracões do Cristal, as

mulheres e as crianças foram levadas em carroças. Os homens e os rapazes fizeram o trajeto a pé. Desfilamos em fila indiana sob os olhares de muitos curiosos postados ao longo do caminho.

Os porto-alegrenses já estavam acostumados a ver muitos grupos imigratórios de outras nacionalidades. Não estavam, porém, habituados a ver imigrantes poloneses, que falavam lingua tão estranha e vestiam roupas tão bizarras. Nos barracões o forte calor de verão e os enxames de mosquitos não nos permitiam descansar nem de dia nem de noite. Diariamente, recebíamos a visita de famílias polonesas que, anos atrás, se haviam estabelecidos em Porto Alegre.

Rumo a Colônia São Marcos A nossa estada prolongou-se por uma semana. Ficamos sabendo que todas as famílias do nosso grupo seriam encaminhadas para a Colônia São Marcos. A saída

de Porto Alegre foi marcada para o dia 24 de dezembro. A Diretoria de Terras e Colonização pôs á nossa disposição alguns barcos a remo. Pela tardezinha daquele dia chegamos a São João do Monte Negro. Pela primeira vez iríamos festejar o Santo Natal em terra estranha. Para os poloneses católicos o Natal é a principal solenidade do ano. Durante as quatro semanas do Advento, os poloneses

preparam-se para o Natal com fervorosas preces e atos penitenciais. Na véspera do Natal, cada família polonesa, reunida em seu lar, inicia a comemoração do nascimento do Salvador com um rito especial. Recordando a mensagem angélica “

Glória a Deus nas alturas e na terra paz aos homens de boa vontade”, o pai e a mãe pedem, mutuamente, desculpas por faltas cometidas durante o ano. Os filhos reconciliam-se com os pais e entre si. Brindam-se, em seguida, repartindo, mutualmente a hóstia não consagrada, à qual chamam de ” Oplatek”. Após da janta, sem se levantarem da mesa, entoam cantos de natal, chamados “kolendy”. Sentíamos saudade das celebrações natalinas em nossa terra natal. Alojados em

barracões e cercados de pessoas desconhecidas, como poderíamos celebrar o Natal segundo o nosso costume tradicional? Fazendo da necessidade a virtude, as famílias de nosso grupo, reuniam-se e, a luz de lanternas a querosene, foram cantando “kolendy” (cantos populares do natal). O ambiente pobre dos barracões era viva imagem da gruta de Belém. Por isso, essa vigília do Natal retratava, mais ao vivo, o natal do divino redentor.

No dia 25 permanecemos nos barracões. Os que puderam, foram assistir a missa festiva na Igreja matriz. Meu pai, em nome de todo o grupo, foi cumprimentar o padre vigário e a apresentar-lhe os votos de Boas Festas de Natal. À tarde, o vigário veio visitar-nos. Embora fosse alemão e não falasse a lingua polonesa, foi recebido com visível demonstração de fé e contentamento. Adultos e crianças

precipitaram-se para beijar-lhe respeitosamente, a mão. Vivamente emocionado, o padre lançou sobre nós todos a benção. Tal foi o nosso primeiro Natal celebrado no Brasil.

No dia seguinte, ao raiar do sol, a Diretoria de Terras e Colonização enviou tropeiros e carroceiros ao alojamento. Recebemos a ordem de continuar a viagem. As bagagens foram colocadas nas carroças. Sobre as bagagens foram acomodadas as crianças. Os tropeiros meteram numas bruacas as bugigangas dos imigrantes; e noutras, os farnéis para 5 dias: charque, farofa, pão, café em pó e açúcar. Sem detença, a caravana começou a movimentar-se. À frente saiu8 a tropa ponteada por um madrinheiro. Guiavam-na 4 tropeiros, armados de facão e pistola. Seguiram as carroças com as bagagens e as crianças. Mulheres e moças, rapazes e homens, formando pequenos grupos, iniciaram a caminhada sob o sol causticante do verão. Uma nuvem de poeira erguia-se por onde esta multidão de pedestre ia andando. Os tropeiros eram vaqueanos experimentados. Conheciam, palmo a palmo, todo o longo trajeto e os pontos de parada, onde havia sombra e água fresca. Geralmente, chegavam ao ponto de parada uma hora antes do resto da caravana. Descarregavam as bruacas, desencilhavam os muares, juntavam lenha e acendiam o fogo para o churrasco e o café. Depois do frugal almoço, la pelas 3 horas da tarde, reiniciava-se a Segunda etapa da caminhada até o próximo pouso, onde

havia enormes galpões. Dormíamos no chão batido, sobre folhas de árvores. Os bons colonos alemães, vendo-nos passar, ofereciam-nos água, broa e bananas madurinhas. Sorriam-nos satisfeitos quando lhes dizíamos com sotaque polonês”Danke schon” e ” Bóg zaplac” (Obrigado. Deus vos pague). Adivinhava-se que esses colonos germânicos também tinham passado pelas mesmas privações, quando foram encaminhados para aquela região.

Com bastante dificuldade conseguimos cruzar o rio Cai. O trecho mais pesado da nossa viagem foi a subida da serra de Feliz. A Gente ia andando o dia inteiro e, no anoitecer, quando olhava para trás, tinha a impressão de estar, ainda, no ponto de partida.

Este texto continua e descreve a chegada na colônia e o início da vida destes imigrantes no Brasil.

 

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